4º Aperitivo

Supermãe
Ziraldo

Meu avô era uma figura! Foi comerciante, tropeiro, fazendeiro, mascate. Sua profissão mais afinada com seu temperamento, porém, foi – parece-me – a de ferreiro. Blacksmith, se ele fosse uma figura do farwest americano (ser blacksmith é tão mais grandioso do que ser apenas um ferreiro)!

Ele era um homem extremamente criativo e habilidoso. Inventou máquinas de fazer enxadas e ferraduras, triplicou a produção de foices de sua ferraria, fabricou carrilhões, revólveres, tentou o moto-contínuo. E escolheu nomes fantásticos para suas filhas. À primeira chamou Ia (assim, o menor nome do mundo), a segunda batizou e registrou no cartório com o nome de Zizinha; depois nomeou uma Ondina, uma Odina e uma Hortência. Esta em homenagem a ele mesmo, que se chamava Hortêncio.

Zizinha nasceu em 1911, cresceu, casou-se e virou minha mãe e de mais seis filhos. Era, por especial, uma filha legítima do meu avô, ainda que o temperamento dos dois fosse bem diverso. Em comum – o que os legitimava como pai e filha – era a capacidade de inventar a própria vida, a certeza de que tinham vindo ao mundo – certeza sem a consciência dela, é claro – para estarem na platéia e não no chamado palco da vida, sem deixar de agir sobre ele. Nada para eles era alheio na paisagem humana à sua volta.

Prestavam atenção em tudo. Meu avô, que teve como escola as lições do pai, curandeiro negro que sabia o Chernoviz de cor, dizia daqueles com quem convivia na pequena e violenta vila, cheia de jagunços e ladrões de cavalo, que ele vivia entre “animais propensos ao homem.”

Custei a entender o que meu avô queria dizer com isto, mas, cedo, compreendi que minha mãe jamais lidou com outro ser humano sem tentar compreendê-lo, com a maior de todas as generosidades. Sem se achar o sal da terra, é bom esclarecer; sem deixar de reconhecer suas próprias fraquezas. Dona Zizinha era uma sábia.

Vivi na barra da sua saia até os 16 anos, idade em que, como um passarinho, as mães daquele tempo admitiam que os filhos tinham emplumado e era hora de alçarem vôo, deixarem o ninho. Eu era o filho mais velho. Minha mãe fez meu enxoval, bordou os monogramas nas minhas camisas, pregou botões nas minhas cuecas e me mandou para o mundo. Minha mãe até à porta, o meu pai até o trem, onde ele arrumou minhas tralhas no porta-malas do vagão e me deu um beijo de despedida. Meus coleguinhas, no trem, não entenderam nada: nunca tinham visto em suas vidas um pai beijar filho homem. Dona Zizinha e Sêo Geraldo – que me deram a vida e o nome: Zi de Zizinha e Raldo de Geraldo – eram pais raros nos hábitos culturais da região de onde venho. Mamãe brincava de roda com os filhos, meu pai penteava o cabelo de seus meninos para irem à missa.

Dona Zizinha foi uma das mais famosas costureiras de minha cidade, varava noites fazendo completos enxovais de noivas. E tinha muitas e muitas aprendizes trabalhando com ela, numa casa pequena que era uma festa. Durante muito tempo, longe de casa, começando minha vida na cidade grande, acordava no meio da noite ouvindo o barulho de suas pedaladas na máquina Singer, tic, tic, tic, tic, uma sinfonia. Ela acordava os filhos todos, bem cedinho pra gente sentir o cheiro da manhã, para ver a beleza que era o sol nascendo ou o mistério da transparente gota d’água dançando sobre a folha da taioba. E fazia versinhos. E escrevia um diário. Deixou mais de 40 cadernos escritos com suas impressões, seus julgamentos, suas histórias.

Dona Zizinha teve quatro filhos e três filhas. Eu sou o mais velho, logo depois de mim veio o Ziralzi, depois o Zélio, todos com Z. Depois vieram as três Marias: Maria Elisa, Maria Elena e Maria Elisabete. E, finalmente, veio o Geraldinho. Quando suas meninas ficaram moças, minha mãe inventou um código secreto para escrever suas queixas para elas, sem que outras pessoas pudessem tomar conhecimento de seus segredos. Principalmente o papai, meu suspiroso pai, de quem ela disse às gargalhadas, quando chegaram às bodas de ouro: “Estamos comemorando cinqüenta anos de resistência mútua.”
Meu avô inventou a máquina de fazer foice. Pois minha mãe inventou o feijão em pó, o bolo vitaminado, as bolsas de crochê feita com tiras de saco plástico, o seu próprio corte de costura.

Um dia, avisaram para ela que tinha chegado à cidade uma sua amiga de infância que queria visitá-la. Ela disse que não queria ver a amiga. E explicou: “Os maiores inimigos de gente velha são o espelho e os amigos de infância!” É claro: eles mostram como a gente está e não como a gente acha que está.

Dona Zizinha era muito original. Preciso pegar seus 40 cadernos, um dia, selecionar suas histórias e pensamentos e publicá-los num livro a que chamaria de “O Pensamento Vivo da Supermãe.” Ela era a Supermãe! Às vezes, às gargalhadas, ligava par mim, contando histórias onde ela era a personagem, pra ver se eu queria usá-la nas tiras. Ela sabia que era a Supermãe e gostava deste seu defeito.
Quando meu pai fez 70 anos, na festa que demos pra ele, minha mãe era a mais animada do salão; dançou e cantou todas as canções que sabia. Uma menina passou por ela e comentou: “Aí, hem, Dona Zizinha, lembrando do seu tempo, não é?” Ao que ela respondeu, definindo-se, definitivamente: “Que é isso, minha filha, meu tempo é o tempo todo!”

* * *

Um dia, um amigo meu explicando a um leitor porque não acreditava que eu poderia ser uma grande escritor, explicou-lhe: “Falta ao Ziraldo um pouco de sofrimento.” É claro que eu tive a sorte de não ter uma infância traumática, é claro, que há uma enorme idealização nesse texto aí, mas é importante que a essa altura da minha vida eu ataque de Álvaro Moreyra: “as amargas, não.”


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