3º Aperitivo

Clóvis de Barros Filho
Professor de Ética da Universidade de São Paulo

Minha história tem dois capítulos, ou um mesmo capítulo com duas divisões sobrepostas de igual importância: a esportiva e a escolar.
A primeira parte da história começa no Rio de Janeiro, para onde meu pai foi transferido e eu, todos os dias, treinava natação. Aos 12 anos, numa prova de campeonato, eu estava em segundo lugar. Numa das braçadas, pareceu que o juiz fez sinal para eu parar. Não parei mas hesitei. Quando percebi que não era nada, continuei com tudo, mas era tarde, tinha caído duas posições. Terminei a prova em quarto lugar. Ao sair da água, em casa e durante anos, meu pai falou: “Uma hesitação dessas podia custar a sua vida. Na competição, não se pára nunca, nem que mandem parar. No fim você descobre o que aconteceu. Mas antes você ganha.”.
Meu pai levava competições muito a sério, me preparou a vida toda para enfrentamentos. Repetia frases corriqueiras – “nunca subestime o adversário”, “jamais comemore a vitória antes do tempo” – e também mais rebuscadas: “Vitória é vitória. Mas a derrota pelejada, a derrota vendida caro, é tão nobre quanto a vitória justa. Só a derrota sem esforço é imperdoável.”
Pois eu também passei a levar competições muito a sério. No Rio, fui campeão carioca pelo Botafogo. Em São Paulo, primeiro no clube Paulistano e depois na Hebraica, fui campeão paulista, brasileiro e sul-americano. Aos 14 anos, quebrei, com Ricardo Prado, o recorde sul-americano no revezamento 4 x 100, quatro estilos - eu nadava peito.
Apesar dos títulos, assumo agora: nunca gostei de nadar. Mas, quando eu nadava, meu pai se alegrava. Quando ele se alegrava, eu me alegrava. Eu só nadava por amor a meu pai. Quando ele adoeceu, me desinteressei, parei de nadar. Depois que morreu, nunca mais entrei numa piscina, qualquer piscina, sequer para me refrescar em dia de calor.

O segundo capítulo, o dos estudos, meu pai também encarava como competição. Freqüentei o Santo Inácio no Rio e o São Luiz em São Paulo. Na faculdade de jornalismo da USP, entrei com quinze anos, o mínimo que o pai esperava de um filho que desde cedo tinha sido matriculado em cursos de idiomas para crianças – no de japonês entrei aos oito, sem contar os de inglês, francês, italiano, espanhol, alemão e russo.
“Tem gente que vive como olho e gente que vive como ramela”, meu pai dizia muito isso. Para ser olho, a chave estava em duas frases: “Não se apequene” e “Viva intensamente, pois a maioria das pessoas não vive assim, e a vibração e a intensidade fazem a diferença.” Mas intensidade precisa de propósito, e o propósito precisa de devoção. “Os japoneses estão se preparando”, eis o alerta dele contra o relaxamento. Meu pai partia do pressuposto de que as pessoas têm competências parecidas e que o destaque vem do empenho. Se eu não me esforçasse tanto quanto os japoneses, famosos por sua dedicação, seria derrotado nas batalhas vida afora. Convicto desse ponto de vista, meu pai era implacável.
Quando prestei vestibular para a faculdade de Direito, havia, na prova de História, uma questão sobre a Bossa Nova. Quando terminei, meu pai me aguardava, na saída, com o gabarito na mão. Conferimos. Errei só a tal pergunta sobre a Bossa Nova, que, imediatamente, ele considerou um relaxamento. Mesmo que eu tenha tirado 9,4, a nota mais alta em História entre os que entraram na São Francisco naquele ano, meu pai, por anos e anos, me perguntou, em tom indignado: “como é que você se permitir errar uma questão sobre João Gilberto?”
Não por acaso, fiz jornalismo e direito. Meu pai percebeu muito cedo que eu tinha talento para atividades ligadas à fala. A partir daí, me incentivou até não poder mais, em português e nos outros idiomas. “Filho, se você não fizer algo que dependa da oratória e retórica, será mais um na multidão. Mas, se trabalhar a fala, vai se destacar.” Hoje, além das aulas na USP, coordeno o mestrado da ESPM – Escola Superior de Propaganda e Marketing – e dou um curso na Casa do Saber, em São Paulo, chamado O que é uma vida bem sucedida. Se meu pai me visse ali na frente, falando aos meus alunos, exultaria. Se ele ainda pudesse se alegrar, eu me alegraria mais.


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