3º Aperitivo

Maria imaculada
Liza Vieyra, atriz

Minha mãe, de verdade, não era minha mãe de verdade. Essa, a que me pariu, eu mal vi. Mãe mesmo era a Ziza, que desde bebê já cuidava de mim quando a minha mãe biológica não podia – e ela quase nunca podia.
— Ziza, fica um pouco com a minha filha, eu já volto, dizia minha mãe.
A Ziza aceitava, minha mãe sumia, aparecia só dali uns três dias. A história se repetia, até que, quando eu estava com uns três anos, a Ziza achou melhor me assumir de vez. Propôs ser minha tutora. Minha mãe concordou e sumiu do mapa. E a Ziza, desse dia em diante, tomou como missão me fazer a filha mais feliz do mundo. Abriria mão de qualquer coisa sua por mim. Daria sua vida para a minha ser outra vida, não a de uma doméstica de pouco estudo, mas de alguém com uma promessa de um futuro bom. De todos os episódios da minha vida com a Ziza, aprendi o verdadeiro significado da palavra amor. O dela era incondicional. Era acima de tudo.

Podia ser no dia-a-dia, na hora dela me arrumar para a escola, na sua decisão de gastar seu minguado salário de doméstica comigo. Ziza não saía, não tinha namorado, não comprava roupas para ela, não se permitia nenhum luxo – era tudo para mim. Um dia, quando eu tinha uns sete anos, minha mãe biológica reapareceu, querendo me levar embora. Estava com um homem, já tinha tido outros filhos, e me propôs morar com eles para cuidar dos filhos dela. Ziza virou um bicho, mãe leoa mesmo. Foi ao Juizado de Menores, assegurar a minha guarda, e me levou para Itu, na casa da minha avó (mãe dela), onde fiquei até os dez anos, até retornar a São Paulo. Podia ser na escolha do colégio mais caro que ela mal conseguia pagar. O amor da minha mãe, Ziza, podia ser constatado a qualquer momento.

Em São Paulo, fui estudar no mesmo colégio de freiras que havia em Itu, o Colégio São José, na Liberdade. Ela pagava meia bolsa para mim, o que já era um sacrifício enorme, e fazia questão de manter meu uniforme impecável, saia ferrugem de pregas, camisa branca, o uniforme de ginástica, que era todo de cambraia, ela era um orgulho só comigo. Mas não me acompanhava nas festas da escola. Na formatura do primário, em Itu, eu aprendi, pela primeira vez, como era dolorosa a sua situação: Ziza era negra – coisa que eu, branquinha, nem percebia no cotidiano – e pobre, e as freiras a discriminavam. Em São Paulo, a situação se repetiria, as freiras também não queriam mais me dar bolsa – e Ziza mandou sua irmã, minha tia, que era professora e falava melhor para conversar na escola. Minha tia deu um escândalo e me tirou de lá. Desde então odeio freiras. E aprendi a repudiar, veementemente, qualquer preconceito.

Fui para o colégio público, o Marina Cintra, que era bom, e aos 13 anos comecei a trabalhar. Éramos inseparáveis, morávamos juntas no quartinho de doméstica dela na rua Antônio Carlos, e sua patroa gostava de mim. Deixava que eu morasse lá, e Ziza ficava agradecida, sem perceber que era explorada com um salário minguado e horas absurdas de trabalho. Mas era para mim que ela vivia, então... aceitava tudo. Como toda mãe, ela sonhava que eu me formasse em medicina ou direito. Quando prestei EAD (Escola de Arte Dramática) para ser atriz, ficou decepcionadíssima. Eu já fazia parte de um grupo de teatro amador, já era engajada em política, mas nada disso ela sabia. Eu estava na adolescência, e essa, claro, foi nossa fase de segredos. Ela não gostava que eu namorasse. E não falava de coisas assim comigo. Ziza jamais conversava sexo. Ela nunca trocava de roupa na minha frente. Fui entender isso bem mais tarde.

Com o teatro ficando sério, ela, como sempre acontecia, decidiu me apoiar. Ia ver as peças. Convivia com meus amigos. Fiz novelas na TV Tupi e fui ficando conhecida. Ela recortava o que saía na imprensa sobre mim, não cabia em si! A revista Amiga fez uma grande reportagem comigo, e posamos juntas para as fotos. No meu nome artístico, Liza Vieyra, uso o sobrenome da Ziza. Meu nome de batismo é Maria Elizabete Borges Pegado, e por isso minha mãe biológica não atinou, quando me viu na TV, que eu era eu, sim, sua filha. Foi se dar conta ao ver as minhas fotos ao lado da Ziza. Uma semana depois de a revista sair, minha mãe veio bater à nossa porta, querendo ver a filha agora famosa. Não quis falar com ela. Vi, da janela, ela e Ziza discutindo. E minha mãe se foi de novo.

Minha Ziza insistia para eu ao menos conhecer o meu pai, que vivia em Fortaleza. Eu nem aí. Um dia ela foi até o Ceará mostrar para o meu pai quem eu era, levou fotos minhas das novelas, e ele, embora gentil com ela, não quis me conhecer. Fiquei louca com ela. Briguei feio, disse que ela me fez ser rejeitada duas vezes, foi a pior coisa que poderia ter feito. Eu a magoei. Nesse meio tempo, casada e com dois filhos, morei uma fase no Rio de Janeiro, e fazia novelas na Globo. Ziza já não trabalhava, ficava num apartamentinho no Sumaré, em São Paulo, que foi da minha tia professora, que já tinha morrido. Cheguei a morar ali sozinha, por um período.

Assim como a mãe perfeita, Ziza foi também a avó perfeita. Se eu, no Rio, precisasse dela porque ficaria sem babá, ela pegava um ônibus à noite em São Paulo e às 6 da manhã estava na porta da minha casa, para cuidar dos meus filhos. Gastava cada centavo dela com eles. Sua história de dedicação absoluta continuava com os netos. O mundo girou, me separei, voltei para São Paulo e ficamos novamente juntas. Até que apareceu uma tosse estranha nela, que não passava. Insisti para que ela fosse ao hospital, ela enrolou, enrolou e, quando foi, já era tarde. Estava com câncer. Como sempre, não me falou, não reclamou, só quis me poupar. Já que não quis me dizer, eu tinha de fingir que não sabia da doença, conversávamos como se fosse a coisa mais normal do mundo. Ela só perguntava quem estava cuidando dos meus filhos...

Então ela teve metástase, e o câncer se espalhou por ovário e vagina. A médica fez novos exames, e foi constatado que a Ziza era... virgem. A mãe mais perfeita de todas, a Nossa Senhora, a Maria Imaculada, a Virgem Maria. Ziza nasceu para ser mãe, mesmo sem ter nem tentado conceber um filho.

A sua dedicação total e irrestrita para mim. O episódio dela, negra e pobre, ter sido maltratada na festinha da escola esnobe. Sua luta para a minha mãe não me explorar. Cada momento da minha vida com a Ziza é uma lição que ela me ensinou. De amor, de solidariedade, de devoção. Nossa Senhora Ziza.



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