2º Aperitivo

Paulo Autran
Excepcional ator brasileiro

Menino, eu estava brincando no quintal de casa quando minha avó me chamou:
— Paaaulo, tem um homem aí no portão querendo falar com você.
De fato, parado no portão, estava um homem muitíssimo bem vestido, de terno impecável. Atrás dele, um baita carrão, conversível, último tipo.
— Você é o filho do doutor Walter?, ele perguntou com um sorriso.
— Sou.
— Do delegado Walter?, quis ter certeza.
— Sim.
— Tenho um presente para você.
E me entregou uma caixa magnífica, sextavada, de madeira nobre. Minha avó não deixou abri-la até meu pai chegar em casa do trabalho – nessa época, ele cuidava de uma delegacia especializada em coibir a jogatina em São Paulo. E, quando chegou, quis logo saber quem tinha dado. Ninguém sabia nada além da descrição do homem e seu carrão. Papai fez questão de abrir, apesar dos meus protestos – afinal, o homem disse que o presente era meu. Mas na caixa havia charutos para o meu pai e, aí sim, um envelope para mim. Dentro do envelope, seis contos de réis – uma pequena fortuna à época. “Tudo isso é para mim?!”, perguntei. Bem, era, mas não adiantou. Meu pai não me deixou ficar com o dinheiro.
— Isso deve ser coisa de algum dono de cassino tentando me comprar. E dinheiro de jogo não entra nessa casa.
Não entrou mesmo, embora ele tenha fumado os charutos, um depois do almoço, outro depois do jantar, como sempre fazia. “Charuto tudo bem. É algo tão pequeno que ninguém vai imaginar que me vendi por causa dessa bobagem”, justificou. Dias mais tarde, meu pai convocou a imprensa e, na frente dos jornalistas e fotógrafos, doou os meus seis contos de réis para uma associação beneficente. A notícia saiu em todos os jornais da região. Esse era o meu pai, Walter Autran, advogado e delegado incorruptível de várias cidades do interior paulista — Espírito Santo do Pinhal, Caçapava, Sorocaba — e também de São Paulo. Quando morreu, aos 69 anos, em 1960 (ele era de 1891), nem precisou fazer inventário. Não deixou nada, não tinha nada. Isso diz tudo sobre a sua honestidade, um dos patrimônios morais que ele legou para mim, meu irmão e minhas irmãs.
Além da moral, outro legado importante está na sua força de vontade, uma força que não se apreende de uma vez só, mas que filhos absorvem aos poucos ao longo da vida, um dia atrás do outro. Fumante inveterado, abatia dois maços por dia, além dos dois charutos. Quando fez 50 anos, no começo da década de 40, resolveu parar. Sem ser católico praticante, embora tivesse seu lado místico e espiritual, entrou na Igreja da Consolação, em São Paulo. Sentou no último banco e, ali, prometeu a si e a Deus que nunca mais fumaria. Levantou, cruzou a porta da igreja, amassou o maço que estava no bolso e o jogou no primeiro lixo que encontrou.
Substituiu o cigarro pela pintura. Incentivado por um amigo, José Godói, bom pintor, comprou cavalete, telas, tintas e começou. Fez quadros muito bonitos - três deles (duas marinas, um bosque) estão no meu quarto de dormir. Outros, também naturezas e marinas, estão na pousada que tenho em Paraty. Não são apenas meus olhos de filho que enxergam beleza nas obras de meu pai. Ele chegou a participar de uma exposição de, veja só, policiais pintores, em Paris, no final da década de 40 ou começo da de 50. Com o quadro que enviou para lá, ganhou menção honrosa na exposição, um grande orgulho para ele.
Meu pai sempre foi um delegado atípico. Para começar, não parecia policial. Era calmo, tranqüilo, suave. Compreendia, em vez de repreender. Se uma mãe chorava ao ver o filho preso, ele, coração mole, não agüentava e soltava o rapaz, se o delito fosse leve. Numa época, foi o responsável pela delegacia de repressão à vadiagem. Antes de prender, sentava e conversava uma hora com o vadio, na tentativa de lhe incutir idéias nobres sobre o trabalho e a responsabilidade. Muitos não se deixaram sensibilizar. Mas sei que pelo menos dois ouviram as palavras de meu pai e se transformaram em pessoas trabalhadoras. Sei disso porque, quando eu era advogado, ambos me procuraram pelo sobrenome e me contaram a história de gratidão que tinham com meu pai.
Quando o doutor Walter saiu da polícia, não gostou de ficar sem fazer nada. Foi advogar comigo, no escritório que eu tinha na rua XV de Novembro, 200. Ele tinha 58 anos, eu 25. Logo depois, eu comecei no teatro e desisti de ser advogado. Meu pai assumiu meus casos – no que talvez seja o único caso da história em que o pai herda o escritório de advocacia do filho. Por volta dessa época, papai teve de ser operado e passou alguns dias no hospital. Passei todas as noites com ele. Ali, conversamos como nunca. Ele falou de sua vida, suas alegrias, seus sentimentos, seus medos, me contou todas as histórias que contei aqui. Pela primeira vez, entendi meu pai como ele realmente era – algo que um filho só pode fazer quando ele também se torna um adulto. Há muitos filhos que, quando o pai morre, lamentam-se por nunca terem tido uma conversa longa e franca com ele. Eu tive essa conversa naquele hospital. Depois dela, além de pai e filho, nos tornamos amigos e cúmplices.




Voltar