2º Aperitivo

Alzirão Cobertor
Cleyde Yáconis, atriz


Antonio Abujamra foi o primeiro a chamar mamãe de Alzirão. O apelido pegou. Quem a conhecia logo colocava seu nome no aumentativo. Não pense que se tratava de uma mulher masculinizada. Ao contrário, ela era feminina e muito vaidosa, só que a sua personalidade forte e enérgica legitimava o apelido. Mamãe sempre foi muito sincera e direta. Mesmo quando éramos muito pequenas, ela falava conosco de igual para igual e explicava as coisas exatamente como eram. Sempre repetia que nós quatro éramos como as pernas de um banquinho. Nenhuma podia falhar senão o banquinho caía. Eu e minhas irmãs, Cacilda (Becker) e Dirce, passamos nossa infância ouvindo mamãe dizer isso. Era genial. Com essa imagem ela conseguia transmitir com precisão a noção de união, de colaboração e de cumplicidade que nunca perderíamos. E que precisávamos: afinal, quem deveria ser o verdadeiro suporte do banquinho, meu pai, Edmundo Yáconis, era um caixeiro-viajante que nunca esteve presente. Por causa do trabalho dele até deixamos Pirassununga, nossa cidade natal. E ele nos abandonou de vez quando eu tinha quatro anos.

Naquela época, há 78 anos, mulher separada, mesmo que sem culpa disso, era uma vergonha. Depois da separação, sem apoio de nenhum parente (friso a palavra parente porque família, para mim, é outra coisa), mamãe, que era professora primária, conseguiu uma cadeira para lecionar em São Vicente. Fomos morar em Santos, carregando a incerteza e nada mais na bagagem. Nosso endereço? A favela Rua das Flores, que ficava no Canal 3 da praia. Na falta de um barraco, a casa era um contêiner de navio, com uma única lâmpada no teto, e ficamos ali por dez anos.

Andávamos de Santos até a escola em São Vicente a pé, seguindo a linha do trem. Todos os meses, o pagamento de mamãe só dava para comprar um saco de arroz, um de feijão e um de batata e nisso consistiam nossas refeições. Às vezes remexíamos o lixo, catávamos restos de comida. Nem sempre encontrávamos coisa aproveitável. Então, quando a fome batia, mamãe pegava um pedaço de papel celofane colorido e colocava em volta da única lâmpada da nossa casa-contêiner para Cacilda dançar. Cacilda dançava, nós ríamos, nos empolgávamos e esquecíamos da fome. Mamãe driblava as dificuldades com a beleza. Plantou sementes de maracujá em volta de nosso contêiner. As árvores cresceram, floriram e cobriram nossa casa. Todos os barracos vizinhos eram feios e sujos. O nosso era lindo e sempre limpo.

Ela sempre dava um jeito de apresentar a vida com mais dignidade. Durante toda a nossa infância, mamãe comprava, uma vez por ano, um corte de tecido marrom e costurava um vestido para ela. Esse era o vestido com o qual dava aulas todos os dias. Quando chegava em junho, na mudança de estação, ela virava o tecido do avesso e o recosturava para que parecesse ser outro vestido, menos desbotado. Depois que essa fase passou, durante anos ela nem podia chegar perto da cor marrom. Muito tempo depois mamãe nos contaria que os colegas a tratavam com preconceito, não só por ser divorciada mas também por ser muito pobre.

E com tudo isso, não havia cabeça baixa para Alzirão. Ela era animada, ativa, cheia de idéias. Quando não estava trabalhando, cozinhando ou costurando, escrevia pequenas peças para nós encenarmos, cantava para que dançássemos e repetia que íamos sair daquela situação. Era hora do lazer? Ótimo, então vamos bordar, tricotar, dançar, cantar. “Não quero ninguém parado com a mão no colo”, ela repetia. Tinha horror ao ócio improdutivo. Sou capaz de passar dias contando fatos engraçados, tristes e marcantes sobre Alzirão, mas prefiro relatar uma coisa simples, do dia-a-dia, que sempre acontecia no inverno e traduz mamãe e a noção de união e acolhimento que aprendemos com ela. Não tínhamos cobertores. Na infância nunca tivemos. Então, nos meses de frio, mamãe colocava Cacilda embaixo de seu braço direito, Dirce embaixo de seu braço esquerdo, e eu, que era a caçula e a mais miudinha, entre suas pernas. Todas grudadas em seu corpo e aquecidas por seu abraço.
Alzirão faleceu aos 85 anos, com a mesma clareza e força de espírito que fez com que criasse, sozinha, três filhas fortes e felizes.


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